[Mulheres da Bíblia] “Rute – Uma História de Providência, Graça e Vida Eterna.” por Pr. Emilio Garofalo Neto

A história de Rute é uma das mais amadas da bíblia. O povo acha “Orgulho e Preconceito” o máximo porque não conhece Rute! Tudo bem, Mr. Darcy e Elizabeth tem seu charme, mas Rute e Boaz vão além de ser uma história de amor; é uma história de Providência, de Graça, de Vida Eterna. Essa sim é de chorar e cair de joelhos! Em um livro curto e fácil de ler, encontramos a bela história de uma mulher moabita indo morar na terra prometida, abraçando o Deus verdadeiro e encontrando redenção.

Rute nasceu em família pagã; sua criação não envolveu aprender a lei de Deus, não tinha referência às promessas divinas de redenção. Nunca foi ensinada sobre verdadeira adoração, sobre viver piedosamente, sobre as promessas do Messias. Apesar disso ela provavelmente sabia algo sobre os Israelitas, povo vizinho. Talvez tenha ouvido notícias de que havia uma fome em Belém de Judá; que ironia, na cidade chamada Casa de Pão estava faltando pão…

Um dia chega uma família de hebreus vindo morar em Moabe. Elimeleque, nome de gente importante, com sua esposa Noemi e seus dois filhos Malom, e Quiliom. E não é que estes hebreus logo se interessam por moças de Moabe? Rute se casa com um deles e aprende coisas sobre o Deus dos hebreus, Iavé que os tirou da escravidão no distante Egito.

Eventualmente morrem todos os homens, ficando apenas a sogra Noemi com ela e sua concunhada Orfa. Noemi decide que vai voltar para tentar a vida em Belém; estavam chegando notícias de que Iavé se lembrara de seu povo. Noemi não tinha mais nada a fazer em Moabe e decide como uma filha pródiga retornar à casa do Pai.

Noemi insistiu, instou, argumentou; não teria porque as moças irem com ela. Noemi não tinha mais filhos para se casarem com elas… E mesmo que Noemi tivesse filhos, iriam Orfa e Rute esperar até eles crescerem? O que Noemi não falou é tão pesado quanto o que ela disse; estava implícito algo difícil de explicar: nenhum hebreu fiel a Iavé cometeria o erro de Malom e Quiliom de se casarem com moças pagãs. Noemi sugere que o melhor para elas seria ficar. Orfa escolhe o caminho fácil e mais garantido, se despede de Noemi e da história. Rute decide que vai. Mesmo que isso signifique não casar; mesmo que isso resulte em não mais voltar a Moabe, mesmo que isso implique em deixar sua família e amigos e casa. Pois ela aprendeu algo vital; ela aprendeu sobre Iavé, o Deus verdadeiro que resgata seu povo de seus pecados. Rute faz um pacto com Noemi de que se agarraria a ela. Numa das mais famosas passagens do AT ela jura: “não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te, porque, aonde quer que fores irei eu e, aonde quer que pousares ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada…” Rute 1:16

A fidelidade de Rute para com Noemi é bela, mas ela é acima de tudo fidelidade para com o Deus de Noemi. Rute não está simplesmente dizendo vou ficar contigo e cuidar de você até morreres; mesmo depois da morte de Noemi ela irá ficar com seu novo povo, ela irá habitar entre os hebreus, ela irá ser um deles pois agora ela conheceu esse novo Deus. É uma mudança de fidelidade do coração.

Rute chega em Belém e não quer saber de moleza; não fica reclamando da vida (como Noemi) ou se dizendo amarga e incapaz (como Noemi, de novo). Ela vai em frente, encara a colheita, trabalha de sol a sol, faz o que é necessário para o bem de sua família. A mulher piedosa não faz como Noemi, encostando-se na sua amargura e esperando que algo aconteça; a mulher piedosa como Rute age dentro dos parâmetros da lei de Deus e segue em confiança na sua providência. Rute não tem muitas alternativas, mas ela pode colher espigas segundo a lei, e é o que ela faz, tornando frutífero o tempo e oportunidades que ela tem. A mulher piedosa não fica agindo como se a vida lhe devesse, como se Boaz lhe devesse, como se Deus lhe devesse; a mulher piedosa não fica apontando o dedo em riste para Deus dizendo “Eu deixei minha família e minha terra por ti e por Noemi, porque é que não me abençoas e tenho que ficar colhendo espigas?”. Não, ela sabe que é melhor colher espigas nos campos de Iavé do que se fartar nos campos de Moabe.

Na providência do Senhor, Rute eventualmente conhece um homem chamado Boaz, homem bom e piedoso que ama a Iavé e conhece sua Lei. Boaz a trata tão bem que ela se surpreende; como é que uma estrangeira pode ser tão bem tratada? Noemi percebe a oportunidade de ao mesmo tempo conseguir um marido para Rute e recuperar as terras de seu marido falecido.

Rute segue os conselhos de Noemi e escuta a orientação piedosa e sábia de Boaz; ela não tenta usufruir da situação, seduzir o homem, armar esquemas, fazer conchavos. Ela confia no Senhor e segue trabalhando, entendendo que cabe a ela fazer o que está a seu alcance e deixar que Deus cumpra o Seu plano.

Rute tem coragem de deixar claro para Boaz quais são suas intenções; ela não usa meias palavras, ela não usa de falsas estratégias; seu sim é sim, e seu não é não: “Sou Rute tua serva, estende a tua capa sobre tua serva, porque tu és resgatador”.

É importante entendermos melhor essa idéia do resgatador; Boaz era alguém que estava numa posição de cuidar de Noemi e de Rute, resgatando as terras que eram de Elimeleque. Isso envolveria nesse caso uma união matrimonial com Rute, trazendo descendentes para esta casa. Um outro homem ficou interessado na possibilidade até ficar sabendo que ia ter de casar com Rute; não gostou da idéia de ter de dividir suas posses com outra família nem de elevar o nome do morto. Passou a vez. Boaz estava menos preocupado com seu nome do que em fazer o bem e se interessou verdadeiramente por aquela mulher piedosa, trabalhadora, fiel e transparente.

O final da história é de encher o coração; Rute a moabita é agora parte do povo de Deus. Ela que nascera sem esperança humana de conhecer o Deus verdadeiro, por meio da maravilhosa teia da providência divina casou-se com um homem que a levou a conhecer Iavé. E o final do livro reserva surpresas! Rute se torna ancestral do próprio Rei Davi!

Aliás, o livro é colocado precisamente entre Juízes e 1 Samuel; um indicador de sua posição histórica; é o livro de conexão entre o complicado período dos Juízes e o tempo dos reis. E Rute é parte dessa conexão. Se isso já não fosse o suficiente, o evangelho de Mateus (1:5) mostra que Rute foi ancestral do próprio salvador, o Senhor Jesus Cristo!

Não importa a sua origem; o importante é a quem você está unida. Não importa se vens do paganismo, se nunca te ensinaram o evangelho quando criança – o importante é que se agarre ao seu resgatador Jesus Cristo que te faz parte da família de Deus. Faltava pão na casa de Pão (Belém), e Deus usou a estrangeira Rute para trazer a cabo o nascimento, naquela mesma cidade, do Pão da vida.

____________

* O Rev. Emilio Garofalo Neto é ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear em Brasília-DF (http://www.ipsemear.org). É formado em Comunicação Social–Jornalismo pela Universidade de Brasília. Concluiu o Mestrado em Divindade no Seminário Teológico Presbiteriano de Greenville, Carolina do Sul, e obteve o grau de Ph.D. em Estudos Interculturais no Seminário Teológico Reformado, em Jackson, Mississipi.

 

Loading Facebook Comments ...
Loading Disqus Comments ...