W4SBF00ZA ideia de desenvolver esse assunto surgiu da necessidade de aconselhar um pai que hesitava em disciplinar seus filhos com medo de que a disciplina gerasse revolta.

Então, meus pais me pediram que conversasse com ele e contasse minha experiência, a fim de mostrar como a disciplina exercida segundo a Bíblia é benéfica para a alma de uma criança. No fim das contas a conversa acabou não acontecendo, mas a vontade de compartilhar as impressões de um filho que foi disciplinado, serviu de inspiração para esse artigo.

Uma coisa é indiscutível, a Bíblia ordena aos pais disciplinarem seus filhos com vara, mas como isso deve ser feito?

Antes de qualquer outra coisa, devemos ter em mente que a disciplina deve ser usada não só para corrigir, mas também para ensinar e exortar. Lembro-me muito bem que meus pais tinham uma “fórmula” para disciplina que consistia em: Levar o filho para um lugar reservado (geralmente um quarto), explicar a ele o pecado que cometeu, usar a vara, orar e retornar ao convívio familiar. Com esse artigo gostaria de compartilhar a importância que cada uma dessas etapas da disciplina teve em minha vida.

  • Disciplinar em um Lugar Reservado

Por mais “grave” que seja o pecado cometido, os pais devem evitar ao máximo uma repreensão mais severa em lugares públicos. É claro que o erro deve sempre ser repreendido o quanto antes, mas os pais devem ter o cuidado de não expor seus filhos a humilhação pública. Sinceramente, não me lembro de ter passado por algo assim, mas cansei de ver pais arrancando seus filhos de onde estivessem e batendo neles à vista de todos. A disciplina é uma atitude de amor, e não deve ser usada para mostrar ao mundo que um pai disciplina seu filho, ou para envergonhar uma criança. Muitas vezes essa atitude pode até mesmo anular o efeito da disciplina.

  • Explicar o Pecado

Talvez seja esse um dos pontos mais importantes no processo da disciplina. Muitos crentes acreditam que as crianças não têm capacidade para entender o Evangelho. É claro que você não pode esperar que seu filho de 4 anos entenda perfeitamente que é o egoísmo em seu coração, que o leva a não querer dividir com seu irmão um brinquedo que ele sequer está usando, mas não podemos duvidar da capacidade de uma criança de assimilar o que lhe é explicado incessantemente.

Algo muito interessante que Tedd Tripp enfatiza em seu livro “Pastoreando o coração da Criança” é que os pais não devem focar pura e simplesmente no comportamento externo de seus filhos, mas sempre buscar entender e explicar a eles a motivação de seus corações ao cometerem determinado pecado. Lembro-me claramente que no começo achava muita pretensão da parte de meus pais quererem dizer o que se passava no íntimo de meu coração, mas era engraçado como dificilmente eles erravam, e isso foi quebrando o meu orgulho aos poucos, até eu perceber que eles não estavam preocupados apenas com as minhas atitudes, mas com o que gerava cada uma delas: meu coração pecaminoso. Esse foco é extremamente importante pois um filho educado segundo a Palavra de Deus, não é aquele que se força a obedecer seus pais para não passar vergonha, ou porque sabe que vai apanhar quando chegar em casa, mas é aquele que entende que a falta de submissão às pessoas que foram escolhidas por Deus para serem autoridade na vida dele é um pecado que desagrada a Deus.

Mais uma vez, não espere que seu filho pequeno entenda perfeitamente as intenções pecaminosas por trás de suas atitudes, isso é um processo que leva tempo, mas os filhos precisam desesperadamente ser treinados desde cedo a identificarem e combaterem seus pecados, e não simplesmente suas atitudes ou comportamentos.

Um hábito que também deve ser praticado é o de ler a Bíblia com seu filho nesses momentos de disciplina, usando sempre textos que sejam claros, e que exponham o pecado que está sendo tratado. Era algo que me dava segurança e temor, pois eu via claramente que a correção não estava sendo inventada ao bel prazer de meus pais, mas estava sendo extraída da sabedoria de Deus, e me dava a consciência de que eu não estava sendo criado para meus pais, mas para Deus e de conformidade com a Sua Palavra.

  • Usar a Vara

“Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo” Provérbios 19:18. Muito se discute hoje em dia sobre “bater” em uma criança, mas a bíblia é muito clara quanto a isso: “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá” Provérbios 23:13. O que se deve discutir entre crentes não é se devemos ou não fazê-lo, e sim como fazê-lo. O que mais ouço são histórias de pessoas que apanhavam de seus pais com cabos de vassoura, fivela de cinto e outros instrumentos um tanto brutais. A criança deve sim sentir dor, pois deve aprender desde o cedo que o pecado tem conseqüências dolorosas na vida de uma pessoa. A escolha do instrumento, porém, deve ser feita com sabedoria e cautela, e mais importante, os pais devem saber medir a força imposta sobre os instrumentos que usam para castigar seus filhos, pois como Paulo exorta aos efésios, “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira(…)”.
Uma disciplina severa demais causa ira e revolta a uma criança, por isso os pais devem ter o cuidado de se certificar que seus filhos estão sofrendo o castigo na medida certa.

Outro ponto importante que deve ser lembrado antes da disciplina acontecer: um pai JAMAIS deve disciplinar seu filho num momento de raiva. Não importa o que seu filho fez, ele deve ser disciplinado pelo seu pecado e não pela tristeza, vergonha ou raiva que causou a seus pais, pois a justiça que deve ser satisfeita é a Deus, não a do homem. A ira cega o ser humano, e uma disciplina imposta num momento de fúria, invalida totalmente o propósito santo para o qual a ela foi criada. Os pais devem estar sempre atentos a suas emoções pecaminosas a fim de não serem dominados por elas no exercício de tão árdua tarefa.

Mais um ponto importante nessa etapa é que os pais devem ensinar seus filhos a se submeterem à disciplina dos pais, por mais dolorosa que possa ser. Procure sempre usar textos bíblicos que mostram sua autoridade na vida dele para que como eu, ele perceba que está sendo disciplinado não por um homem, mas por Deus.

  • Orar

A prática da oração é extremamente importante no processo de disciplina. Essa foi uma prática que me ajudou a entender a diferença entre autoridade dos meus pais e a autoridade de Deus na minha vida. Não era o suficiente pedir desculpas à pessoa ofendida pelo meu pecado e pedir desculpas aos meus pais, era necessário pedir perdão também Àquele que há de julgar vivos e mortos. A criança precisa ver que sofrer as consequências e entender o pecado cometido não é o suficiente. É necessário arrependimento! Seu filho deve ser incentivado a fazê-lo a sós também, pois muitos pecados não transbordam através de atos ou palavras, e seu filho precisa saber que mesmo que você não esteja ciente de seu pecado quando ele o cometer, ele precisa se arrepender e pedir perdão a Deus por eles, afinal, é a Deus que seu filho deve prestar contas!

  • Retornar ao Convívio Familiar

Talvez a prática mais negligenciada pelos pais crentes no processo de disciplina seja esse! Muitos pais se deixam levar pela raiva ou pelo rancor gerado pelos pecados de seus filhos. Um conselho: Controle-se! Domine seu pecado!

Isso era algo que no começo eu achava bastante estranho: Meus pais batiam em mim, e depois de orar comigo, me abraçavam diziam que me amavam, e após aquele momento de disciplina tudo voltava ao normal, como se eu não tivesse cometido pecado algum. Por vezes eu achava até falsidade da parte deles, como um “morde e assopra”, mas essa impressão errada não demorou para sumir e dar lugar ao entendimento, que veio também através da explicação de que meus pais me disciplinavam por que me amavam: “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” Provérbios 13:24.

É custoso a uma criança entender que seus pais o disciplinam porque a amam, e não foi diferente comigo. Durante muito tempo eu não entendi profundamente a relação entre amor e disciplina, mas confiava neles. E exatamente por causa do retorno ao convívio familiar, eu sabia que não importava o pecado que eu cometesse, meus pais não agiriam de forma mesquinha a ponto de me desprezar, mas continuariam me amando, e por isso, me disciplinariam o quanto fosse necessário.

Seu filho precisa ver que você o ama apesar dele ser um pecador, como você também o é. Algo que você, pai ou mãe, deve ter em mente é que seu relacionamento com seu filho deve espelhar o relacionamento de Deus com seus filhos adotivos. Através da prática do retorno ao convívio familiar, os pais mostram a seus filhos que Deus nos ama, e por isso nos castiga: “porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” Hebreus 12:6. Essa prática demonstra também que Deus é rico em perdoar e não nos abandona nem nos deixa à própria sorte apesar de nossos muitos pecados.

O retorno ao convívio familiar exige acima de qualquer outra coisa, perdão! Se você não sabe perdoar a seu irmão, jamais poderá praticar a disciplina bíblica e através dela pastorear seus filhos e guiá-los corretamente aos pés de Cristo. A falta de perdão para com seu filho, ou até mesmo a demora em perdoar, poderá trazer conseqüências devastadoras ao seu relacionamento com ele.

Para os que temem que a disciplina com vara afaste os filhos de seus pais, ou prejudica o relacionamento, é que trago a minha experiência como filho que foi disciplinado segundo a Palavra de Deus. Com o passar dos anos meu relacionamento com meus pais vai ficando mais forte e mais íntimo! Eles não são só meus progenitores, são meus amigos, pessoas em quem eu confio, e que serão sempre exemplos de vida cristã pra mim.

Eu não sou uma exceção ou um caso à parte.  A disciplina bíblica exercida  para a glória de Deus, além de livrar a alma de seu filho do inferno, trará confiança e amor ao relacionamento, criará e fortalecerá um vínculo que não será facilmente quebrado, e fará com que seu filho seja grato a você e a Deus pela disciplina que foi exercida em sua vida. Além disso, a disciplina não será benéfica apenas para os filhos, mas também para os pais. Esta é a promessa que a Palavra de Deus nos faz: “Corrige teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma” Provérbios 29:17.

Que Deus nos ajude e nos capacite a entender e praticar diariamente a sua Palavra para louvor e honra de Sua Glória.

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Lucas QuaresmaLucas Gaspar Quaresma tem 21 anos, é estudante do 5º período de Engenharia de software. É o mais velho dos 4 filhos de Simone Quaresma e do Rev. Orebe Quaresma, pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. É membro da Igreja Presbiteriana de Icaraí, mas serve a Deus na Congregação de Ponta d’Areia, onde seu pai é pastor.